
Desigualdade no cuidado: mulheres assumem a maior parte da responsabilidade no Brasil
Um estudo recente aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Essa realidade impacta diretamente a vida profissional e educacional delas, que frequentemente deixam de lado seus próprios projetos para se dedicar ao cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência.
Cultura e invisibilidade do trabalho de cuidado
A pesquisadora Valquiria Elita Renk, professora da PUCPR e uma das autoras do trabalho, destaca o forte cunho cultural do trabalho de cuidado no Brasil. “Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”, afirma.
O estudo, que incluiu 18 entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e Santa Catarina, revela que a maioria das cuidadoras são filhas (68%) ou esposas (21%) de quem cuidam. A faixa etária predominante é entre 41 e 60 anos (43%), seguidas por idosas com mais de 60 anos (37%).
Sobrecarga e falta de reconhecimento
As mulheres entrevistadas relatam cansaço extremo, solidão e sensação de desamparo. Muitas pararam de trabalhar para se dedicar integralmente ao cuidado, o que afeta sua previdência e renda. “O cuidado é full time, às vezes 24 horas por dia”, descrevem.
Essa sobrecarga é ainda mais acentuada na chamada “Geração Sanduíche”, mulheres que conciliam trabalho formal, gestão da casa e cuidados com filhos e idosos. A falta de colaboração familiar e a ausência de reconhecimento social e financeiro agravam a situação.
Políticas públicas e a luta por reconhecimento
Enquanto alguns países como Finlândia, Dinamarca e França já possuem políticas de apoio aos cuidadores, com remuneração e custeio de serviços, o Brasil ainda está em fase inicial. A Política Nacional do Cuidado foi instituída no final de 2024 e sua implementação é o primeiro passo.
A professora Valquiria defende o reconhecimento social e a compensação financeira para as cuidadoras, além de considerar o cuidado como um trabalho que possa contar para a aposentadoria. Em alguns casos recentes de divórcio, juízes brasileiros já têm concedido que ex-maridos paguem pelo tempo em que as ex-mulheres cuidaram dos filhos, um sinal de mudança.
Educação para a igualdade no cuidado
O estudo também aponta para a necessidade de uma mudança cultural através da educação. É fundamental que meninas e meninos aprendam desde cedo sobre a divisão igualitária do trabalho doméstico e de cuidado. “Os meninos também têm responsabilidade, tanto como as meninas”, ressalta a pesquisadora.
A internalização da responsabilidade do cuidado pelas mulheres é um fenômeno cultural que precisa ser desconstruído para que o ônus não recaia unicamente sobre elas, garantindo uma sociedade mais justa e equitativa.
Com informações da Agência Brasil







