Bloco Aparelhinho celebra 15 anos de carnaval de rua em Brasília com som eletrônico e ocupação democrática

O Bloco Aparelhinho comemora 15 anos de trajetória no carnaval de Brasília neste sábado (14). Nascido da ideia de levar som eletrônico pelas ruas da capital, o que era visto como um desafio em uma cidade onde se dizia “não ter carnaval”, o Aparelhinho se transformou em um movimento consolidado de apropriação do carnaval de rua e de ressignificação do espaço público.

“É puro amor à cidade, às ruas da cidade, às avenidas ocupadas e coloridas; é vontade mesmo de ver o carnaval de rua acontecendo aqui”, declarou o DJ Rafael Ops, um dos fundadores do bloco, em entrevista à Rádio Nacional FM de Brasília. A inspiração veio das aparelhagens do Pará, e a proposta inicial era simples: “sair empurrando nosso carrinho pela rua”.

Do carrinho simples ao objeto tecnológico

O primeiro carrinho do bloco foi construído na oficina de marcenaria do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB). Na época, Rafael Ops, então estudante de artes cênicas, idealizou o projeto em parceria com o arquiteto Gustavo Góes. Diferente de um trio elétrico, o objeto era pensado para ser “empurrável”, capaz de “ocupar marquise, túnel, subir em calçada”. Com quatro caixas de som, o primeiro desfile, em 2012, surpreendeu pela recepção positiva.

Ao longo dos anos, o carrinho evoluiu, tornando-se mais tecnológico e visualmente impactante, com as cores características do bloco: azul e laranja. Já foi feito de madeira, ferro, adaptado para versões online durante a pandemia, funcionou como charrete, trio e até carreta, demonstrando a constante reinvenção do Aparelhinho.

Atualmente, o bloco conta com o apoio financeiro da Secretaria de Cultura do Distrito Federal e, em 2026, cerca de 100 pessoas estão envolvidas em sua organização. A publicitária Bruna Daibert, que frequenta o bloco desde a primeira edição, ressalta a importância de formar novos públicos para o carnaval de rua.

“É o bloco em que encontro meus amigos, que a gente está em casa, que trago minha filha, que eu faço questão de vir”, contou Bruna, que leva sua filha, hoje com 16 anos, ao bloco desde criança. Ela defende a ocupação democrática da cidade: “Acho que a gente tem que ocupar a cidade inteira, é uma vez por ano. Deixa o carnaval acontecer, é tão bonito, tão colorido, tão feliz”.

Diversidade sonora e inclusão

O repertório musical do Aparelhinho é uma fusão de ritmos, elaborada pelos DJs fundadores – Pezão, Rafael Ops e Rodrigo Barata – e convidados. A base é eletrônica, mas passeia por remixes de músicas de carnavais brasileiros, frevos, axés, sambas-enredos, brega funk, piseiro, rock and roll e diversas vertentes da música eletrônica.

A diversidade do bloco também se reflete no público. O cozinheiro Iago Roberto, em seu primeiro carnaval em Brasília, se mostrou satisfeito com a energia da festa. “Não escuto [música eletrônica] no dia a dia, mas estou curtindo. Só a energia da galera nesse lugar já está maravilhosa”, disse.

O Aparelhinho também busca ser um espaço inclusivo, acolhendo foliões infantis e pessoas com dificuldade de locomoção. No entanto, desafios de acessibilidade foram apontados pela dentista Fabiana Montandon, que acompanha o bloco há 10 anos. “Bastante buraco na pista, a calçada não tem rampinhas pra descer e o banheiro é pseudo-acessível”, relatou, apesar de ter comparecido mesmo com a perna imobilizada, atraída pela promessa de “espaço acessível”.

Com informações da Agência Brasil