Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí prescreve no Rio após 20 anos sem punição

O crime em meio ao carnaval

Na sexta-feira de Carnaval de 2006, enquanto o Bloco das Carmelitas animava as ruas de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, um grupo de homens realizava um dos maiores roubos de obras de arte do Brasil. Cinco quadros de artistas renomados como Claude Monet, Salvador Dalí, Pablo Picasso e Henri Matisse foram subtraídos do Museu da Chácara do Céu, em uma ação que surpreendeu foliões e autoridades.

As obras, avaliadas em mais de US$ 10 milhões na época, desapareceram em meio à multidão. O produtor Daniel Furiati, presente no local, relatou o caos e a falta de percepção do que realmente ocorria: “A gente pensava que era algo acontecendo dentro do próprio Carmelitas, como furto ou outra confusão”. Os criminosos fugiram pulando muros e se misturando ao bloco, levando um tesouro cultural.

Investigações e suspeitos sem solução

Ao longo de 20 anos, as investigações apontaram três nomes como principais suspeitos. Paulo Gessé, dono de uma kombi branca, foi investigado sob suspeita de ser cúmplice de outros assaltantes. Apesar de ter sido preso e sua residência revistada, a Justiça entendeu que não havia provas concretas para torná-lo réu.

Denúncias anônimas adicionaram dois franceses à lista de suspeitos: Michel Cohen, negociador de pinturas com histórico de fraudes nos EUA e que chegou a fugir da Interpol no Rio, e Patrice Rouge, artesão radicado no Brasil. Ambos negam qualquer envolvimento no crime.

O desabafo de Patrice Rouge

Em entrevista exclusiva à Agência Brasil, Patrice Rouge, que reside atualmente em Avignon, na França, negou veementemente sua participação no roubo: “Essa história toda é completamente absurda. Uma pessoa faz uma denúncia anônima e o meu nome é jogado no meio de tudo isso”. Rouge relata que a acusação lhe causou grande prejuízo e que sempre manteve uma relação com a justiça.

Ele conta que veio ao Brasil em 1974 e se envolveu com o mercado de joias antigas e restauração de peças. Na época do roubo, possuía uma casa em Santa Tereza, o que aumentou as suspeitas. No entanto, ele afirma ter retornado definitivamente para a França em 2005 e que frequentou o Brasil diversas vezes nos últimos 20 anos, inclusive indo à Polícia Federal no aeroporto para obter registros de suas entradas.

“A arte do descaso” e falhas institucionais

A jornalista Cristina Tardáguila, autora do livro “A Arte do Descaso”, critica o que considera um “desinteresse institucional generalizado em solucionar o crime”. Segundo ela, houve descaso por parte da diretoria do museu, do governo federal, do Ministério da Cultura, da polícia e da mídia.

O livro aponta uma série de negligências, como a demora da primeira patrulha da Polícia Militar em chegar ao museu, a falta de preservação de provas no local e a comunicação falha da Polícia Federal sobre as obras roubadas. A situação se agravou com o desaparecimento do inquérito policial, que só foi encontrado anos depois.

Em resposta à Agência Brasil, o Ministério Público Federal informou que o processo criminal principal foi arquivado provisoriamente devido à falta de autoria definida, permanecendo suspenso.

Segurança reforçada e o legado das obras

Desde 2007, o Museu da Chácara do Céu fecha nos dias de Carnaval para reforçar a segurança. A estrutura de vigilância foi modernizada, com câmeras de monitoramento 24 horas e equipe treinada. A diretora do museu, Vivian Horta, afirma que o roubo é citado como referência para a equipe.

As obras roubadas, como a pintura “Marine” de Monet, “Le Jardin du Luxembourg” de Matisse, “La Danse” de Picasso, “Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons” de Dalí e o livro de gravuras “Toros” de Picasso, representam uma perda cultural inestimável para o país.

Especialistas como Helder Oliveira e a jornalista Cristina Tardáguila ressaltam a importância de políticas públicas para a valorização do patrimônio cultural e de uma polícia especializada no combate a crimes contra bens históricos. A produção de um longa-metragem ficcional baseado no livro “A Arte do Descaso” promete reacender o interesse público pelo caso.

Apesar da prescrição do crime, o Museu da Chácara do Céu mantém a esperança de que as obras um dia sejam encontradas e retornem ao acervo, continuando a fazer parte da história e do legado de Raymundo Ottoni de Castro Maya.

Com informações da Agência Brasil